“Sobre o Tempo”

ampulheta

A reflexão sobre a categoria do tempo existe há séculos, provavelmente desde os hebreus. Os gregos falavam sobre três tipos de tempo:

1. Kronós, filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra), é representado como um deus devorador.  A pedido de sua mãe castra o pai com uma foice e, mais tarde, já casado com sua irmã Réia, engole cinco dos seus seis filhos, por medo de ser destronado por eles. O sobrevivente Zeus se vinga do pai lhe dando uma poção mágica, a qual lhe faz vomitar os filhos devorados. Kronós é considerado, portanto, o tempo devorador, cronológico, do relógio, da sequência, que se pode medir, quantitativo, tempo da duração, insistente, repetitivo. É o chamado “tempo dos homens”.

Na atualidade, em todos os setores da vida, a sociedade se questiona sobre a maneira como o tempo está sendo vivenciado. Como tem sido nossa existência, nossa relação com ele?

Diz Sêneca:

(…) “Quando usaste teu tempo contigo mesmo? (…) Quantas obras fizeste para ti com um tempo tão longo? Quantos não esbanjaram a tua vida sem que notasses o que estavas perdendo? O quanto de tua existência não foi retirado pelos sofrimentos sem necessidade, tolos contentamentos, paixões à vidas, conversas inúteis, e quão pouco te restou do que era teu? Compreenderás que morres cedo”. (…) “O que está em causa então? Viveste como se fosses viver para sempre, nunca te ocorreu a tua fragilidade. Não te dás conta de quanto tempo já transcorreu. Como se fosse pleno e abundante, o desperdiças e, nesse ínterim, o tempo que dedicas a alguém ou a alguma coisa talvez seja o teu último dia”. (…) “Que tolice dos mortais a de adiar para o quinquagésimo e sexagésimo anos as sábias decisões e, a partir daí, onde poucos chegaram, mostrar desejo de começa a viver?” (2006:31-2) .

O tempo é um ladrão impiedoso

que nos persegue

com seus passos silenciosos.

Ele nos rouba o tempo todo,

ele nos rouba assim:

a eternidade da juventude,

os sonhos do futuro,

a nossa própria grandeza.

Mas algumas vezes

ele também nos traz

a sabedoria,

a paz

e a alegria

dos momentos vividos”.

(Zerka Moreno 1995:59)

Estas frases nos levam a cogitar que não sabemos conviver com o tempo. Em geral, nos deixamos “devorar” por ele, pois sempre achamos que ele engole nossas possibilidades de vivenciar aquilo que queremos, com pouco momento cronológico. Sempre queremos que o relógio não passe, ou então, que passe mais rápido.  Ou estamos sempre à frente dele, querendo descobrir nosso futuro, ou estamos olhando para trás, presos aos nossos arquivos. O presente, mesmo, este não é vivido, ou não o sentimos como “o” presente, tempo para ser experienciado, sentido. Parece que nunca ficamos satisfeitos com a característica que o envolve, sejam segundos, minutos, horas, meses, anos.

D’Amaral fala de um tempo acelerado, em que a contemporaneidade é marcada por alta velocidade, o presente é amputado e ao futuro é delegado um extremo poder. Diante desta contingência ele defende uma “ética da desaceleração” (2010: 20).

2. Kairós é o deus do tempo e das estações. É o momento oportuno, o bom momento de alguma coisa, o tempo da “Oportunidade”, em que algo acontece em um determinado tempo; é  o tempo qualitativo, “o tempo de Deus”, que não pode ser medido. Provavelmente este é o tempo bem vivido, bem aproveitado, a ocasião certa para criar, realizar, agir, atuar.  O tempo é valorizado pela sua própria existência como tempo e é sentido como a estação apropriada para todos os momentos.

3. Aión é o deus do acaso e também deus do tempo. É o imprevisível, presente na extensão do tempo; o momento fortuito do acontecimento. É aquele instante do tempo que não sabemos, muitas vezes, explicar do porquê de tal ocorrência.

Diante desta síntese conceitual do tempo fazem sentido algumas perguntas:

1. Podemos chamar o tempo contemporâneo de insano?

2. É o próprio tempo – tempo natureza, tempo do relógio – que se modifica e torna o homem, insano?

3. O homem é insano naturalmente e não sabe utilizar o seu tempo?

4. O ser humano devora, ou rouba o seu tempo, e assim acaba por adoecer?

5. O tempo é acumulado de tarefas – insanas – que adoece ou mata o tempo do homem aos poucos, ou mesmo rapidamente?

O tempo contém muitas perguntas e é curto para tantas respostas.  Existem muitas encruzilhadas possíveis, que o leitor pode procurar encontrar por meio de suas próprias reflexões. No momento deixo de lembrança a poesia ao lado, plena de verdades em relação ao tempo, desejando que a esperança nos traga um Outro tempo com o qual possamos viver nosso presente de forma  desacelerada, mais  calma, mais sensata e por inteiro.

Adaptado do ensaio científico “O psicodrama e as (in)sanidades no tempo”

apresentado no  XVII Congresso Brasileiro de Psicodrama

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1ª Sêneca, LA. Sobre a brevidade da vida. Porto Alegre, L&PM Editores, 2006: 30-2.

2ª D’Amaral, MT. História e sentido. In: Perdigão, AB. Sobre o tempo. São Paulo, Pulso, 2010:20.

3ª Moreno, Z. Cantos de amor à vida. Campinas, SP., Workshopsy, 1995:59.